Em busca de compreender o Zen por dentro, o filósofo alemão Eugen Herrigel dedicou-se, no Japão, ao aprendizado do kyūdō — o tiro com arco tradicional — sob a orientação de um mestre que logo lhe advertiu: "o tiro com arco não visa fortalecer os músculos". O que começou como investigação intelectual tornou-se uma experiência de anos, em que a técnica cede lugar ao espírito, e o gesto de atirar deixa, pouco a pouco, de pertencer ao arqueiro. Nestas páginas, Herrigel narra essa travessia com rara clareza: o arco como caminho, o alvo como pretexto, e o instante do disparo como porta para o que os japoneses chamam de satori — a intuição que reconhece, sem mediação do intelecto, a unidade entre o arqueiro e aquilo que ele mira. "Algo atirou e algo acertou", diz seu mestre; e é nesse "algo" que o autor reconhece o mesmo Princípio Absoluto que atravessa, sob nomes distintos, as grandes tradições espirituais — do Dhammapada às bem-aventuranças do Evangelho. Mais do que um relato sobre arquearia, este é um livro sobre a "arte sem arte": o desapego que não é indiferença, a disciplina que se dissolve em liberdade, o esforço que só se completa quando deixa de ser esforço. Esta edição, preparada pela Editora Ekayana após anos de a obra estar esgotada no Brasil, traz revisão completa, notas esclarecedoras e a retradução de trechos selecionados diretamente do original alemão — reafirmando o compromisso desta casa com textos que atravessam gerações.
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