Alguém Vai Morrer é uma potente ficção literária psicológica de testemunho político — na linhagem direta de Dostoiévski (citado explicitamente na epígrafe) e da literatura de trauma/exílio. A tensão não vem de "quem vai morrer", vem da voz perturbadora dos dois principais narradores - Temo e Diana. As histórias de Temo e Diana são chocantes. Chocantes porque foram vítimas da cidade que estavam dispostos a dar a vida por sua libertação. Chocantes porque pagaram um preço alto. Temo foi torturado e preso por 15 anos. A história de Diana revela uma violência diferente daquela vivida por Temo: a violência velada dentro da própria casa e aquela imposta por um Estado que violou seu corpo das piores formas possíveis. Firat Cewerî não escreve sobre a tortura como um fato histórico distante. Escreve de dentro das mentes deformadas por ela. Em seu primeiro romance no Brasil, o autor curdo constrói uma literatura que incomoda, confronta e revela as marcas deixadas pela violência sobre aqueles a quem um Estado chegou a proibir até mesmo de falar sua própria língua.